Andava por uma dessas ruas movimentadas que ligam lugar algum ao nada.
Andava, e só andava.
As pessoas que andavam junto à ele, eram só figurantes naquele espaço.
Nenhuma delas parecia ter profundidade alguma, nenhuma dela parecia ter sido cuidadosamente modelada por um arquiteto maior, andavam, Falavam ao celular com outros figurantes igualmente mal-planeajdos, usavam trajes clichês para suas condições: Ternos para executivos, roupas casuais para pessoas casuais, uniformes para estudantes, trapos para mendigos. Nenhum deles parecia ser como ele, nenhum deles parecia ter tanta vida no olhar, tanto ódio no coração. Nenhum parecia ser tão cheio de sentimento. Sentimento que transparecia, somente no olhar distante, na expressão congelada de quem sonha acordado, nos passos demorados, contrastantes com a atmosfera de uma cidade que nunca dorme. Todos eram somente figurantes, criados para dar veracidade à sua condição de protagonista.
Protagonizava uma história boba, uma história predominantemente de amor, amor platônico com a vida, com a morte e com os sonhos. Era apaixonado por esses ideais, pelos maiores sonhos dos homens. E havia se perdido neles.
Não tinha ideais, nem esperanças, nem expectativas. Queria viver, e essa palavra por si só deveria exprimir alguma coisa. Mas, viver por viver não é o bastante, precisava de sentido.
Via agora, que andava na mesma direção que tinha vindo.
Sentido.
As pessoas sempre andavam prum mesmo lado, e iam, sumiam, desapareciam. Cumpriam suas rotinas, caminhavam rumo seus objetivos. Por que ele não conseguia então, se manter em uma direção ? Por que não conseguia admitir que, muitas vezes, estava de fato andando ?
Por que era cheio de amor.
Amava suas idéias, era por isso, só podia ser por isso.
Como alguém, pode, se contentar com andar, se sonhamos um dia que podíamos voar ?
Como eles podem, andar em uma única direção, quando existem tantas outras a se seguir ?
Como ele poderia, crescer e ser um doutor, quando uma vez na infância se interessara pela pintura, outra na adolescência, pela música ? Como poderia deixar esses amores de lado ?
Como poderia, amar uma única idéia ?
Parou.
Era tudo um jogo.
Um jogo de aparências, idéias e ilusões, afinal.
Uma lágrima escorreu, e talvez um figurante tenha percebido, para parecer que ele de fato chorava, para o fazer perceber que ele de fato deixou escapar uma gota de ódio.
Lembrou-se, uma chave, haviam prometido uma chave, e uma porta.
Uma porta pra outro lugar.
Sorriu, estava louco afinal, sempre fora.
Tirou a chave do bolso.
E atirou.
...
Sangrava, Chorava, Sorria, Gritava. Protagonistas e Figurantes apareciam por entre as sombras. Corriam, tentariam o salvar, por que ele protagonizava aquele mundo.
Sem ele, que necessidade teriam eles para o mundo ?
Nenhuma, nenhuma.
Salvem o protagonista, ou o mundo vai acabar.
Liberte-os, pensava.
Levou a chave à cabeça, e deu uma forte gargalhada.
Uma figurante, de um passado que se repetia muitas vezes chorava, e tentava fazê-lo parar.
Mas ele sorria.
Era por você também, figurante, que ele sofria.
Liberta, é assim que ele a desejava.
E a chave girou.
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
A Game
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